Quando falamos de conceitos como aprender – educar, falamos de algo mais do que uma definição. Tiago Miguel Knob propõe um texto reflexivo sobre aprendizagens para a construção de uma nova ordem, com novas formas de conceber a existência humana. Assim, se reforça a importância em se estabelecer relações horizontais de poder que permitam uma educação crítica desde o questionamento e de aprendizagens diversas.

“Talvez seja hora de caminharmos para racionalidades menos irracionais e prepararmos o pensamento para desaprender”

Partindo de Guimarães Rosa quando, em Grande Sertão: Veredas (escreve Rodrigo Castro Francini*), diz que mestre não é quem sempre ensina mas quem de repente aprende, e de Marcos Bagno em Língua de Eulália, que nos relembra a etimologia da palavra “ensinar” (colocar um sinal, marcar, imprimir), contapondo-a a “educar” (ex. duco: tirar de, dar à luz), vemos que o problema epistemológico a ser enfrentado na prática educativa é, antes de tudo, etimológico. Se “ensinar”, a partir desta compreensão, é totalmente o oposto do que deveríamos pretender (violência no mínimo questionável), o verbo “educar”, por sua vez, apesar de infinitamente superior, também não deveria existir. Talvez, no máximo, em sua forma reflexiva “educar-se”. É todo um processo simultâneo em que se interpenetram as complexidades e as subjetividades do ser e do saber de ambos e demais lados – o da Educação. Por isto é tão paradoxal e impossível, talvez, à lógica cartesiana, compreender e realizar o mestre é quem de repente aprende acima citado.

Para uma nova ordem de pensamentos, conceitos e práticas, continua Rodrigo, são necessárias novas formas. Mas as próprias palavras “ordem” e “formas” não se aplicam ao que hoje parece necessário: desordenar, desaprender, desformatar, desconstruir. Talvez seja hora de transitarmos para formas menos cartesianas e prepararmos o pensamento para a desfragmentação. Talvez seja hora de caminharmos para racionalidades menos irracionais e prepararmos o pensamento para desaprender. Trata-se de questionarmos, dialogarmos e criarmos pensamentos e forças capazes de desconstruir as estruturas que não nos fazem sentido e aprender a construir e construir as bases daquilo que nos faça. Para isso, talvez, seja essencial aos nossos tempos a humildade do mestre que de repente aprende.

E talvez seja necessário de repente aprender porque o modelo social moderno e o seu modo de vida quando enraizados e naturalizados nos homens, mulheres e suas instituições – estratificado, vertical, pré-estabelecido, fragmentado, patriarcal, racista, adulto, violento… – que nega o diálogo simétrico e horizontal (o aprendizado mútuo) e impõe aquilo que deseja impor, deva aprender a dialogar, a construir em conjunto uma ordem intrinsecamente flexível, processual, complexa, coordenada, interdependente, solidária, auto-regulada desde as exigências, ausências, emergências, necessidades e urgências do cotidiano castigado. O monopólio da razão – irracional quando nega a subjetividade, ignora os seres, a afetividade, a vida -, talvez deva ganhar de um modo de vida jovem, de suas subjetividades, ideias, esperanças, conhecimentos, vontades, expectativas, pensamentos e fazeres políticos… da arte e de suas metáforas, poesias, cores, passos e ritmos… os pensamentos, fazeres e sentimentos humanos como catalizadores, motivadores e impulsionadores capazes de nos colocar, muito melhor que a razão, “na pista para conhecer o ser humano, para significá-lo e para dar significado a si mesmo” (Gutiérrez, Prado, 1999, p. 67), para dar sentido à existência, em especial para nós, a partir de um lugar sem sentido, em muitos sentidos, para quem por aqui ou por ali vive.

Este texto, assim, antes de querer analisar ou abdicar das palavras ensinar e educar (até porque em nossas ações as usamos e continuaremos fazendo enquanto não encontrarmos, talvez, formas melhores, para nós, de argumentar sobre o que pretendemos argumentar e porque sabemos, também, que existem outras e possíveis compreensões para as distintas palavras que usamos), é parte de reflexões que vem sendo realizadas no seio de uma utopia crítica e concreta criada por jovens cujo termo ‘educar-se’ é o fundamento[1]. É uma tentativa de – movidos pela necessidade real de superarmos no lugar em que vivemos uma realidade que das mais diversas maneiras impede o ser humano de ser, castiga e, em última instância, mata e tem matado -, vasculhar em nós e em nosso cotidiano, os saberes, conhecimentos, fazeres, sentimentos capazes de nos possibilitar uma existência humana que faça sentido em um lugar sem sentido em muitos sentidos. Algo em que a Educação, em sua forma reflexiva e ativa, ocupa o centro das ações, das reflexões e dos debates.

Trata-se de um educar-se que, como sujeitos e sujeitas do mundo, no mundo, com as outras e com os outros, exige de nós a responsabilidade ética de caminharmos pelo mundo; um educar-se que como seres que precisam aprender para poder viver e que, partindo de onde partimos, precisam aprender a transformar para poder viver, exige de nós caminharmos pelos cantos castigados pelas contradições do mundo moderno com aquela humildade do mestre que de repente aprende, aquela capacidade de aprendermos com todas/os e em todos os momentos para construirmos, a partir de nós, de nosso cotidiano de ausências, urgências e potencialidades, um lugar que nos faça sentido. Um educar-se, portanto, com a pretensão de transformar uma realidade que impede o ser humano de ser, castiga e, mais uma vez, em última instância mata e tem matado, em um lugar em que possamos viver e viver bem em toda a nossa complexidade e riqueza como humanos e como viventes.

“Uma lógica relacional e auto-organizacional que leve o ser humano a redescobrir o lugar que lhe é correspondente dentro do conjunto harmonioso do universo” (Gutiérrez , Prado, 1999, p. 50)

Um caminho, para nós, construído a partir das próprias e dos próprios protagonistas do cotidiano e que, submerso nos desafios do presente, como escrevem Gutiérrez e Prado, deve buscar, em primeira instância, “a satisfação das necessidades não-satisfeitas, desencadeando, em consequência, um processo imprevisível, gestor de iniciativas, propostas e soluções”. Uma ação cujo caminhar se pretende como propulsor de “uma lógica relacional e auto-organizacional que leve o ser humano a redescobrir o lugar que lhe é correspondente dentro do conjunto harmonioso do universo” (1999, p. 50), em um caminho, portanto, que faça sentido às e aos sujeitas/os da ação.

Trata-se de uma recriação do mundo, de uma nova ordem que exige novos modos de ser, de sentir, de pensar, de valorizar, de agir (Boff, 1996); que exige considerar o mundo do ponto de vista das relações e integrações e não a partir de entidades isoladas e fragmentadas. Uma nova ordem que exige abandonar o paradigma que presidiu nosso agir até o momento (estratificado, preestabelecido, linear, sequencial e essencialmente hierárquico; masculino, adulto, branco, hétero e dominante) e que produz nas periferias, cantos e becos do mundo, um mundo que absolutamente não é de quem por ali vive, e apoderar-se de espaços inéditos que requerem novas respostas em todos os âmbitos: político, econômico, cultural, educativo e outros (Gutiérrez, Prado, 1999).

Trata-se, pois, antes de mais, de assumir em nós, em nosso caminhar, em nosso agir, em nosso dizer, a humildade do mestre que de repente aprende, aquela capacidade de questionarmos para desaprender o que está enraizado em nós e sobre o qual, talvez, não nos faça sentido, para aprender a construir e construir, em conjunto, as bases daquilo que nos faça:

Educar a imaginação é ter fé nas possibilidades que nascem do processo educativo com vistas à construção de um mundo possível que se faz, se transforma e se constrói conosco. Trata-se, em consequência, de fazer com que as realidades inexistentes existam; trata-se de fecundar futuros plena e audaciosamente; trata-se de tornar visível o que é invisível através do permanente reembasamento do presente; trata-se de se preocupar com o inacabado; trata-se, enfim, de priorizar em nossas vidas a subjetividade e a imaginação criadora numa linha de força que dá sentido e plenitude à epopéia humana (Gutiérrez, Prado, 1999, p. 119). 

 


Fotos de Duda Corrêa

*Rodrigo Castro Francini é co-fundador da Cidade Escola em São Miguel Arcanjo, SP, Brasil.

[1] Sobre esta iniciativa, ver matéria no site da Reevo: http://reevo.org/pt-br/columna/um-lugar-para-educar-se/; ou conheça o site da Cidade Escola: www.cidadeescola.com.br.

Referências bibliográficas:

Boff, Leonardo (1996), Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. São Paulo: Ática.

Gutiérrez, Francisco; Cruz, Prado (1999). Ecopedagogia e cidadania planetária. – São Paulo : Cortez : Instituto Paulo Freire.