O CIEJA Campo Limpo é uma escola pública de educação de jovens e adultos localizada no bairro do Capão Redondo, em São Paulo — SP. CIEJA = Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos. Alex Bretas esteve lá e conta um pouco de como as pessoas construíram este espaço capaz de acolher e fazer sentido à diversidade.

A primeira anotação do meu caderno no dia em que visitei o CIEJA Campo Limpo foi sobre uma balada escolar para os alunos deficientes. Tendo mais da metade dos seus 1.492 educandos entre 15 a 17 anos, isso não é nenhuma surpresa. Tomada a decisão de fazer a balada, Dona Eda e a comunidade escolar foram buscar apoios, e um banco mostrou-se interessado em ajudar. Num primeiro momento, a parceria com a instituição financeira acabou os levando para uma balada numa escola de elite na outra ponta da cidade, em que todos os alunos com deficiência tinham cuidadores exclusivos — e pouca liberdade. No dia seguinte, Dona Eda encarregou-se de comprar artigos de festa para fazer a balada acontecer “do jeito do CIEJA”. Hoje, ela ocorre de 15 em 15 dias na escola.

Dona Eda CIEJA

Dona Eda. Fonte: Blog do CIEJA Campo Limpo

Por mais que a festa seja direcionada aos estudantes com deficiência, ela é aberta para qualquer pessoa da comunidade escolar do CIEJA. Das sete da manhã às dez e meia da noite, os portões da escola permanecem acolhendo a todos que chegam. Tanta abertura faz do CIEJA Campo Limpo um espaço que respira diversidade. Dona Eda, coordenadora geral da escola, diz que isso é reflexo da própria formação do povo brasileiro, por um lado, e de uma característica constituinte da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no país.

“nós podemos ser diferentes, mas não desiguais”.

A convivência de múltiplos grupos étnico-raciais, a miscigenação e os históricos deslocamentos territoriais fazem do bairro do Capão Redondo — sede do CIEJA — um verdadeiro caldeirão cultural. Na escola, no entanto, a diversidade é pautada a partir de uma máxima de Dona Eda: “nós podemos ser diferentes, mas não desiguais”. Somado a isso, a EJA acaba por agregar quem não teve vez na educação quando mais jovem, seja por conta da necessidade de trabalhar desde novo ou porque não se encaixou no sistema educacional tradicional.

O desencaixe é fruto, muitas vezes, de um ambiente escolar que não olha com atenção para as questões, interesses e necessidades reais de seus alunos. Escolas que buscam preencher ao invés de acolher terminam por não gerar oportunidades expressivas de fortalecimento de vínculos, dado que as pessoas não interagem muito entre si. Sem interações autênticas, não se sentem confiantes para revelar sua essência ao outro. Quando há desestruturação no contexto socioeconômico e/ou familiar, a situação se agrava. Na EJA, além do fato de muitos jovens e adultos serem analfabetos ou analfabetos funcionais, a questão das drogas costuma ser um ponto crucial: logo quando cheguei no CIEJA, fiquei sabendo de uma chacina em que 11 pessoas foram mortas por conta do tráfico no Capão Redondo, apenas alguns dias antes da minha visita.

No limite, a combinação entre esses fatores e um modelo sufocante de escola acaba culminando na “expulsão” (conhecida erroneamente por evasão) escolar. No CIEJA Campo Limpo há espaços em que são tratados temas essenciais para os educandos e a comunidade escolar, como a questão da deficiência. Evadir é fugir: é o que nos acostumamos a dizer a respeito de quem não encontra na escola o acolhimento necessário para ser o que é. Isso não é verdade. Mesmo que a decisão, no fim, seja de cada um, a aderência entre o que a escola oferece e a realidade do aluno é um elemento essencial para fundamentar sua escolha em ficar ou não. Neste ponto, é a escola que não pode fugir da raia.

Um Café que faz sentido

Um dos espaços que conseguem acolher as inquietações vividas por quem frequenta o CIEJA Campo Limpo é o Café Terapêutico. Iniciado em 2008, o Café funciona por meio de encontros semanais para se dialogar a respeito de temas ligados à deficiência. Em 2013, dos 1.300 alunos que estavam matriculados no CIEJA, 300 tinham algum tipo de necessidade especial.

Antes de existir transporte escolar no CIEJA Campo Limpo, mães e pais de alunos ficavam aguardando o término das aulas num local próximo à coordenação da escola. Enquanto esperavam, interações espontâneas ocorriam, e a equipe começou a prestar atenção. Parte significativa dos assuntos giravam em torno das preocupações de pais de alunos com algum tipo de necessidade especial. Certo dia, um deles compartilhou uma angústia: “Se eu morrer, com quem meu filho vai ficar”? Essa pergunta serviu de base para a primeira reunião do Café Terapêutico, e desde então os encontros tornaram-se regulares.

Cafe CIEJA

Um dos encontros do Café Terapêutico. Fonte: Blog do CIEJA Campo Limpo.

A iniciativa, liderada pelo professor Billy Silva, é na verdade um “grupo de pais, alunos e amigos em busca de uma sociedade realmente inclusiva”, conforme se lê no blog do projeto. O foco principal recai sobre as famílias dos alunos, que não raro se sentem desamparadas ao lidar com as questões e necessidades de seus filhos. Os assuntos a serem abordados são decididos em conjunto, e então Billy e Dona Eda saem em busca de pessoas que possam ir à escola agregar novos conhecimentos às conversas. Na questão relativa ao que aconteceria em caso de morte dos pais, por exemplo, um advogado foi convidado para estar com o grupo.

O Café Terapêutico foi se tornando ao longo do tempo mais do que um espaço de troca sobre pessoas com deficiência. Num vídeo com depoimentos sobre a iniciativa disponível no Youtube, ouve-se de diversas mães que participam do Café as palavras “lar” e “família” para descrever a iniciativa da qual fazem parte. Uma delas, a Maria, diz assim: “Eu tenho 17 irmãos, e só eu que tive uma filha que tem problema? Aí depois eu parei pra pensar, né? (…) Meu Deus, se eu reclamo do problema da minha filha, tem outro que tem problemas piores e é feliz. Por que eu não posso ser feliz?” O Café Terapêutico é o espaço que ajudou a proporcionar à Maria e a outros pais e mães reflexões como essa. Cristina Sá, coordenadora pedagógica do CIEJA Campo Limpo, afirma no vídeo que ambientes como os do Café geram aprendizados de forma imediata, às vezes até mais nítidos do que o que se observa em sala de aula. Minha hipótese é que isso ocorre porque os temas ligados à deficiência inundam a realidade das pessoas que participam do grupo. Portanto, conversar sobre isso e buscar conhecimentos relacionados são ações que passam a fazer todo o sentido. A partir de interesses e necessidades semelhantes, as pessoas tecem conjuntamente um ambiente favorável ao cultivo de vínculos, como num projeto de investigação coletiva.

A história de um hub comunitário

Ao caminhar pelo CIEJA Campo Limpo, a impressão que tive foi a de estar num vívido centro comunitário. Além da abertura e diversidade, a capacidade de articulação da escola impressiona: parcerias são firmadas com o poder público, empresas e organizações sociais; pessoas físicas apoiam financeiramente o espaço; e jornalistas e pesquisadores se amontoam para visitar a escola.

A forte rede de apoio que o CIEJA conseguiu estabelecer em torno de si parece ser capitaneada por Dona Eda. “Ela não espera as autorizações da Secretaria, do Estado, ela vai lá e faz”, foi o que ouvi de um professor de taekwondo do Instituto Olga Kos, que promove aulas da modalidade na escola. Acredito que a disposição para fazer o que precisa ser feito — ainda que isso signifique contornar burocracias excessivas de vez em quando — é essencial para que o CIEJA Campo Limpo tenha chegado onde chegou. Mas, nem sempre foi assim.

Segundo Dona Eda, em 2007, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD), a prefeitura queria acabar com os CIEJAs. Foi quando o então secretário de Educação Alexandre Schneider visitou o bairro. Dona Eda prontamente mobilizou seus alunos e foi pra rua protestar contra essa ideia. O secretário foi até a escola e, ciente do bom trabalho que estava sendo feito, desafiou Dona Eda a escrever um novo projeto para reformular todos os CIEJAs da cidade.

Tendo aceitado a missão, ela visitou todos os 13 Centros, um por um, fazendo à equipe de cada um deles a pergunta: “o que esse projeto precisa ter para se aproximar de vocês”? Por meio de indagações como essa, Dona Eda elaborou um projeto que espelhava as diversas necessidades e aspirações dos CIEJAs. Com isso, a ameaça de fechamento das escolas cessou e o modelo tornou-se referência.

Os ventos políticos definitivamente interferem na evolução de projetos como o dos CIEJAs. Com eles, poeiras ideológicas e disputas de poder vêm à tona. Numa de minhas conversas com Dona Eda, ela me contou, nervosa: “já falei com o José Serra para parar de dizer nos seus discursos que a EJA é para “recuperar o tempo perdido”. O tempo vivido não volta, e esse tempo que eles viveram não foi perdido, de forma alguma!”

Crenças como essa só reforçam a ideia de “filme vencido” associada aos adultos que voltam a estudar.

“Quem entra tem medo de ousar, de integrar de fato”, diz Dona Eda.

Os CIEJAs também não passam ao largo de conflitos de poder. Os cargos são muito políticos, especialmente os de direção. “Quem entra tem medo de ousar, de integrar de fato”, diz Dona Eda. Mesmo assim, algumas escolas parecem ter um estoque de coragem. Nos CIEJAs do Butantã e da Freguesia do Ó, por exemplo, a comunidade se voltou contra o governo para eleger diretores que realmente os representavam, ao invés de aceitar quem havia sido indicado à sua revelia.

Práticas que fazem a diferença

O grande estoque de coragem do CIEJA Campo Limpo tornou possível uma série de práticas educacionais interessantes. A gestão da escola é altamente participativa, o que significa que todos têm voz de mudança, inclusive os alunos. Além das assembleias — que já fazem parte do cotidiano — um exemplo disso ocorreu quando o CIEJA se mudou para o espaço que ocupa hoje. Ao se instalar no novo local, Dona Eda começou a perguntar à comunidade: “que escola vocês querem”? Uma pergunta simples como essa ganha densidade na medida em que mais gente é envolvida. Assim, o poder vai se distribuindo.

Outro exemplo de gestão participativa é a biblioteca da escola. O equipamento pertence à comunidade — ficando sempre aberto a quem passa na rua — e foi construído por uma ONG internacional. Ao buscarem lugares no Brasil que pudessem sediar uma biblioteca que fosse realmente apropriada pelas pessoas, escolheram o CIEJA Campo Limpo. Após finalizar a construção, a ONG queria batizá-la com o nome do presidente da organização. Os alunos não quiseram, e decidiram fazer uma votação de oito nomes para designar o novo espaço. Dentre os nomes estava o de Dona Eda, que venceu a votação.“Eles disseram que me escolheram porque sou eu quem faz o corre diário com eles”, disse ela, sorridente e orgulhosa.

No que se refere à questão pedagógica, um dos dispositivos que mais me chamou atenção foi o Diário de Bordo. A ideia é que cada educando possa acompanhar seu próprio desenvolvimento por meio de um registro contínuo em torno de três questões: o que ele já sabe; o que precisa saber mais; e como ele aplica os conhecimentos recém-conquistados em sua vida. Ao longo de sua utilização, o Diário foi se transformando num espaço em que os alunos se sentem à vontade para se revelarem. Por meio dessa prática, eles têm compartilhado mais suas próprias histórias. No limite, o Diário de Bordo funciona como um espaço de reflexão individual que se alimenta das interações tidas em aula e nos momentos extra-classe.

O cuidado em transformar todos os momentos vividos no CIEJA em experiências de aprendizagem é levado a sério. Um dos fazeres que comprova isso é o lanche comunitário. Prática frequente no dia a dia da escola, o lanche obedece uma lógica simples: doa quem tem e recebe quem precisa. É um exercício de generosidade, por um lado, e humildade por outro — dois valores presentes no CIEJA. O lanche comunitário convive ainda com outra prática inspirada na economia solidária, batizada de “Feito por Mim”. Toda quinta o espaço da escola é transformado numa feira em que os alunos e a comunidade podem comercializar artigos diversos. Como o próprio nome já diz, a ideia é que os itens tenham sido confeccionados localmente, de preferência pelas próprias pessoas que os vendem.

Do grande número de alunos do CIEJA, muitos não são naturais de São Paulo. Para acolher essa diversidade de origens, o calendário anual de atividades da escola costuma ser abastecido por uma série de referências culturais e regionais distintas. Um exemplo é o Seminário Indígena. A respeito dessa iniciativa, Dona Eda nos conta uma história:

“Muitas pessoas que vem estudar aqui na escola são índios, mas quando chegam, eles dizem ser nordestinos. Comecei a notar isso, e uma vez quando fomos fazer o Seminário Indígena um deles me disse: “aqui eu posso ser índio””.

Em diferentes situações, uma mesma sensação se mantém no CIEJA Campo Limpo: é muito bom ser quem se é. Que o trabalho em favor de uma educação amorosa perdure por lá – e transborde para o mundo.