“A plataforma nasceu da nossa insatisfação com a forma tradicional de aprender e ensinar”. De uma prática no Brasil, o ativista Alex Bretas traz a experiência, a fala e as reflexões de quem atua para possibilitar encontros entre pessoas que animam trocas de experiências e conhecimentos diversos.

O ponteiro do relógio teimava em não chegar nas 7 horas. O dia havia chegado: quinta-feira! O sol já havia terminado de sumir, e isso lhe fazia ter a certeza de que o momento tão esperado distava, agora, poucos instantes. Foi-se alimentando uma expectativa a respeito de quem, de fato, viria: amigos de amigos que só se interessaram pela muqueca? Conhecidos que viram o encontro no site e realmente estavam afim de cozinhar junto? Pessoas jovens e antigas que se animaram em conhecer mais da música baiana? Ou, simplesmente, gente que há tempos procurava uma oportunidade de dançar?

Quando os pensamentos finalmente pararam de vir é que os minutos se animaram de passar mais rápido: 7 horas! Depois de destilar todo seu cuidado na decoração da casa, luzes estrategicamente posicionadas, tratou de ajustar os últimos detalhes — a música então começa a tocar e os ingredientes já são separados na mesa da cozinha. Mais algum tempo se passa até que o primeiro descobridor bate à porta. As conversas começam tímidas. Logo depois, chegam mais quatro pessoas. Cinco. Seis. Nove!

Sobrevoando a apertada sala e a simpática cozinha em que se concentravam todas aquelas pessoas, era possível ver gente que, há poucas horas, não se conhecia aprendendo a cozinhar junto, comendo muqueca, bebendo caipirinha e dançando baianamente. As conversas vez em quando ficavam distribuídas em pequenos grupos, quando em vez abarcavam a todos. O receio de ninguém aparecer havia sido substituído por uma sensação prazerosa de novidade, de encantamento. O que por algumas semanas fora apenas um convite num site transformou-se num espaço de interações muito reais.

Não tenho certeza se foi exatamente assim que aconteceu, mas pelo menos foi o que minha imaginação encenou quando a Camila Haddad, uma das empreendedoras do Cinese, me disse sobre a história de um dos primeiros encontros da plataforma online. O Cinese é um site e uma comunidade que nasceu “para promover encontros entre pessoas cheias de vontade de dividir seus conhecimentos, habilidades e experiências”. A premissa é que a internet pode ser um mecanismo potente para convidar outras pessoas a interagirem e aprenderem juntas, em espaços presenciais. Contatos e conexões ocorrem virtualmente; trocas de experiências e aprendizados são olho no olho, em qualquer lugar onde haja intenção genuína.

Essa premissa que anima o Cinese também está presente em plataformas como o Nos.vc, no Brasil, e de certa forma em sites como o Meetup, de articulação de comunidades em torno de interesses específicos. O início da concepção do Cinese, não coincidentemente, ocorreu num encontro sobre desescolarização em São Paulo, onde as duas irmãs Anna e Camila conheceram a Giovana, que hoje também empreende a plataforma. A partir de seu nascimento até os dias atuais, o Cinese continua guardando em seu DNA a filosofia da desescolarização, mas a forma com que isso se manifesta, no caso, é bem particular.

“Como fazer a ponte entre pessoas que não se conhecem, mas que poderiam aprender coisas juntas?” Esta foi a inquietação inicial que moveu o trio, ainda que cada uma tenha tido a sua motivação pessoal para se vincular ao novo empreendimento. Na conversa que tive com elas, isso ficou claro: a Cami havia concluído um mestrado sobre iniciativas colaborativas no exterior e viu no Cinese uma forma de materializar, na sua própria realidade, o que apaixonadamente estudara; a Anna vinha de uma transição de vida e carreira, e fundar a plataforma significou aprofundar seu movimento de desconstruir crenças para dar espaço a novas estruturas de pensamento; e a Gi estava concluindo sua graduação em gestão ambiental com uma série de questionamentos sobre educação, no que o trabalho no Cinese veio não só a intensificá-los, como também lhe ofereceu uma maneira concreta de fazer algo a respeito. Elas criaram o que queriam que existisse e, de alguma forma, renasceram junto com o nascimento da plataforma. Sobre esse momento inicial, é a Anna quem diz:

A plataforma nasceu da nossa insatisfação com a forma tradicional de aprender e ensinar. Todos nós, durante a nossa vida acadêmica, nas escolas, nas universidades — e mesmo depois — nos cursos, MBAs, pós, mestrados e extensões (e ainda que dentro de ambientes mais descolados como as escolas criativas), aprendemos em um sistema one-to-many, aluno-professor, sem muita abertura ou interação. Uma pessoa (o professor) é a detentora oficial do conhecimento e impede o fluxo de trocas bem ricas entre todas as outras. As pessoas não se conectam, não se identificam, não trocam o quanto poderiam. Se fazem, é fora da sala, nos intervalos e corredores. Por fim, se dá pouca importância para o processo, para a caminhada e os aspectos sutis da aprendizagem. O importante é o resultado. E daí as provas, testes, teses, notas e tudo o mais.

Para lançar a nova iniciativa ao mundo, as três organizaram a Semana Cinética, um festival de grandes encontros para reunir pessoas que poderiam se interessar pela ideia da plataforma. O primeiro deles, não poderia deixar de ser, foi sobre educação. Logo depois da Semana, o Cinese entrou no ar. Desde o início, não havia pretensão de controlar ou fazer nenhuma curadoria sobre os temas dos encontros. Como ouvi na conversa que tive com elas, “não queríamos fazer essa função de escola”. Até porque, na visão de mundo que originou a plataforma, aprender é possível em qualquer lugar, até mesmo ambiente escolar. “O Cinese é uma ferramenta para que a cidade se torne um espaço de aprendizagem”.

Educação não é só conteúdo, e isso a plataforma parece entender bem. Na verdade, o componente principal dos aprendizados que o Cinese proporciona é a interação. Como na história do encontro de muqueca e música baiana, “o tema do encontro é quase uma desculpa para que aquele processo aconteça”. Uma faísca. Revivendo o que o Cinese já provocou nas pessoas, a Cami me disse:

“A plataforma parece ser uma coisa muito simples, mas o movimento que ela gerou, os encontros, os estalos, os insights… Pessoas se conheceram, projetos aconteceram. Pessoas que se sentiam sozinhas em São Paulo iam aos encontros pra conhecer gente”.

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Neste sentido, o Cinese encarna maravilhosamente a ideia de viver-aprender: um é indissociável do outro. Qualquer pessoa pode “revelar” um encontro e todos podem participar das proposições dos outros, tornando-se “descobridores”. Os encontros tornam-se espaços de expressão, permitindo que descobridores revelem sua voz, e reveladores descubram-se protagonistas.

É possível criar encontros gratuitos e pagos, de modo que quando é cobrado qualquer valor a única taxa incidente é a do sistema de pagamento online utilizado pela plataforma. Não foi sempre assim. Desde o início do Cinese, o site ficava com 12% de todo o recurso movimentado a partir dos eventos pagos, um modelo de negócio comum a plataformas desse tipo. A decisão da equipe em zerar a taxa de uso vem na esteira de um movimento profundo de questionamento às formas usuais de financiamento de empreendimentos. Mais do que isso, trata-se de uma nova visão de mundo — cuja influência é possível sentir não apenas nos negócios, mas também nas relações pessoais, políticas, na educação, na espiritualidade e na religião, dentre outros campos.

Uma visão de mundo abundante

Tirar o “pedágio” da plataforma e não buscar outro modelo de financiamento que possa imediatamente cobrir os custos parece loucura. Mas não é: trata-se de uma decisão muito coerente com o princípio da abundância, que tem sido base de diversas iniciativas colaborativas no mundo todo. Imagine, literalmente, um pedágio numa rodovia: cobra-se um valor pré-estabelecido para que seja permitido a um veículo trafegar por essa via. O que isso gera? Escassez, porque somente algumas pessoas poderão pagar aquele valor, ao passo que várias outras não. Agora, se numa outra rodovia não há qualquer tipo de pedágio, alguém continua precisando arcar com o investimento e os custos de manutenção da estrada (no caso, o Estado), e nesse caso uma decisão também foi tomada a priori no sentido de não permitir que nenhum usuário contribua para que ela continue existindo.

Numa de minhas aulas de economia na faculdade, o professor trazia esse exemplo para ilustrar as diferenças entre os modelos público e privado de financiamento de bens de interesse público. Hoje consigo perceber que essas duas formas conservam o mesmo paradigma da escassez: não é conferido poder de decisão ao usuário. E se os usuários, sabendo de antemão quais os custos, pudessem optar por doar um valor escolhido por eles à manutenção da rodovia? Em tese, seria possível customizar o preço a partir dos distintos juízos de valor e necessidades das pessoas. É claro, isso parte de uma outra visão de mundo, mais distribuída, livre, baseada na confiança — ou seja, abundante. E foi imbuído deste espírito que o Cinese aboliu sua política de fixar o preço de utilização da plataforma. Os custos foram abertos de modo transparente, um mecanismo de financiamento por livre decisão do usuário foi criado — com opções de contrapartidas pontuais ou mensais -, e o código do site foi adaptado para operar sem a taxa de uso.1-bKmAI1cfh4iunO8u88MMwQ“O Cinese tem que continuar vivo se as pessoas quiserem, se for útil”. A ideia é o projeto ser remunerado pelo valor que efetivamente entrega a quem dele se beneficia. Ao anunciar essa decisão num post no blog da plataforma, a equipe do Cinese também manifestou ao mundo as crenças que animam o princípio da abundância:

“As pessoas sustentando coletivamente os projetos nos quais acreditam, libertando eles de patrocinadores, propaganda e modelos de negócio baseados na escassez. Por outro lado, se reapropriando dos processos (no caso do Cinese, o processo de educação) de um jeito mais autônomo e livre”.

É possível perceber que esse novo modelo tem o poder de reforçar o senso de comunidade. Charles Eisenstein, autor do livro “Economia Sagrada”, afirma que

“(…) comunidades se tecem a partir de presentes, doações. Presentes criam laços de diversas formas porque geram gratidão: o desejo de dar algo de volta ou passar algo à frente. Uma transação monetária, em contraste, termina sempre que o produto e o dinheiro trocam de mãos. As duas partes seguem seus caminhos, separadas”.

Dessa forma, a escolha de não cobrar preço fixo do Cinese pode ser interpretada como um presente direcionado à comunidade. Ao mesmo tempo, mais usuários poderão utilizar a plataforma, e o cuidado que cada um terá com a sustentação do serviço é que dirá se ele continuará existindo e se desenvolvendo. O que o ato de não tornar obrigatório um pagamento nem forçar a gratuidade faz é abalar nosso sistema de crenças baseado na hierarquia: não há ninguém impondo nada.

A opção por não fazer nenhuma seleção dos encontros que são criados na plataforma também é um reflexo de uma visão de mundo baseada na abundância. Da mesma forma que não se decide previamente o preço, também não se julga a priori quais encontros são relevantes ou não. Não é que esse julgamento não exista, ele é feito o tempo todo pela rede de forma auto-regulada, isto é, pelas próprias pessoas que se deparam com os diferentes encontros oferecidos no site. Só faz sentido erigir estruturas que validam certos conhecimentos em detrimento de outros numa visão hierárquica. E é exatamente o que as universidades, a ciência e inúmeras escolas insistem em fazer. São, como Augusto de Franco diz, tribunais epistemológicos.

Minha impressão é que, cada vez mais, a equipe do Cinese cuida para que a lógica de funcionamento da plataforma espelhe os valores e princípios de um paradigma abundante. Não é tarefa fácil, visto que, como Eisenstein afirma, “a cultura da escassez nos envolve de tal sorte que a confundimos com a realidade”. E, como representante de um movimento novo, sem rota pré-estabelecida, muitos descobrimentos vão se revelando ao Cinese.

Quando sua mãe diz que é gorda

Ao longo da existência do site, as empreendedoras da plataforma foram descobrindo que, além de ser um espaço para os encontros dos outros, o Cinese também poderia servir às questões que elas mesmas traziam. Percebiam, ainda, que essas propostas que partiam de suas próprias inquietações frequententemente ressoavam muito na comunidade. Neste sentido, o caso mais emblemático talvez seja o texto “Quando sua mãe diz que é gorda”, de autoria de Kasey Edwards, traduzido pela equipe e publicado no blog da plataforma.

Kasey escreveu uma carta a sua mãe e, nela, denunciou de forma pessoal e visceral o quanto o desprezo em relação aos nossos corpos amaldiçoa a nós mesmos e a quem nos rodeia. Ao ler o texto, Anna enviou uma mensagem à autora pedindo permissão para traduzi-lo e publicá-lo. Obteve não apenas uma resposta afirmativa, como também mais dois textos adicionais. A carta traduzida viralizou na internet e teve mais de 50 mil visualizações, além de vários outros desdobramentos nos meses seguintes à publicação. A equipe, então, começou a organizar encontros sobre o tema por meio do Cinese. “Prisões Estéticas’, “Cosméticos do Bem” e “Saúde Integral da Mulher” foram os títulos de algumas dessas conversas. Nos encontros, mulheres que inicialmente não conheciam umas às outras tomavam coragem para compartilhar intimidades, expor seus medos, rever atitudes.

A onda iniciada pela tradução do texto de Edwards foi capaz de influenciar, inclusive, uma das matérias de capa da revista Vida Simples, a qual, percebendo a intensidade do movimento, deu o nome de “Chega de Dieta” à sua edição de dezembro de 2013. Como colhi na conversa que tive com a equipe, “saber que uma história que incomodava nós três saiu pro mundo e tanta gente se sentiu à vontade pra falar é incrível”. E é mesmo.

Quando agimos partindo de algo que nos inquieta verdadeiramente, criamos ecos nas pessoas que, de forma consciente ou não, partilham da mesma questão. É como um fractal: uma questão muito profunda, quando compartilhada, torna-se um padrão que pode se refletir no todo. A interdependência, então, começa a fazer seu papel: percebemos que expor nossas vulnerabilidades pode fortalecer a nós e a quem se aproxima. Tudo no calor da relação. A partir de algo aparentemente tão pequeno quanto a tradução de um texto, espaços seguros foram sendo criados para que mulheres revisitassem suas crenças. A sensibilização gerada pela carta corajosa de Kasey abriu caminho para a conscientização por meio da troca. O processo como um todo só foi possível por conta da disposição das pessoas por trás do Cinese em se apropriar de suas questões mais essenciais e apresentá-las ao mundo.

Crowdlearning

A plataforma, em abril de 2015, contava por volta de 10 mil usuários cadastrados e mais de mil encontros realizados. Em se tratando de temas, já se falou sobre saúde, feminismo, educação alternativa, economia colaborativa, religião, empreendedorismo, programação, marketing, políticas públicas, edição de vídeo, xadrez, culinária, pedaladas, poesia,storytelling, fotografia, composição musical, dentre vários outros assuntos. A diversidade desponta porque se trata de uma aprendizagem das multidões: ocrowdlearning.

“A palavra é esquisita. Mas você faz o tempo todo. Com os amigos num bar. Quando puxa papo com o taxista sobre o que deu ontem no jornal. Quando troca milhares de links de vídeos no youtube com a nova paquera. Quando toma um café com a vó e ouve histórias da guerra. Quando conhece gente nova”.

É o que se lê num texto sobre o conceito no blog do Cinese. Para além de tentar definir exatamente o que crowdlearning significa, o post vai no sentido de desempacotar o ato de aprender. É disso que se trata: eliminar o peso institucional, devolvendo às pessoas a capacidade de se educarem a partir de combinações auto-reguladas entre o que cada um oferece e o que cada um busca. É possível perceber a plataforma, então, inserida num contexto em que aprender

“tem a ver com gente. Com encontro, troca e conexão. Aquela fagulha que faz coisa boa e nova vir à tona. Que desperta aquela vontade grande de descobrir mais de algo. Conhecer mais e mais gente diferente. Buscar novas referências. Frequentar novos cafés. Começar um outro livro. Escrever um poema”.

A internet tem ajudado a despertar o poder das multidões porque possibilita a cada um o poder de se conectar com cada outro, a partir de seus anseios e inquietações. Imagine uma multidão de gente que não se vê, não fala e não escuta: seu poder de ação seria muito reduzido porque as pessoas não seriam capazes de perceber sua potência. A internet permite que a aglomeração se veja, e mecanismos como o Cinese habilitam a voz e os ouvidos das pessoas, fazendo surgir reveladores e descobridores que, enfim, apropriam-se do seu poder. Como Margaret Wheatley diz, “a inteligência emerge na medida em que o sistema se conecta com ele mesmo de formas variadas e criativas”

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Plataformas que funcionam a partir da ideia de crowdlearning apostam na colaboração, no protagonismo e na abundância como valores fundamentais para a aprendizagem informal. Informal, aqui, não é de maneira alguma “menor” do que formal, e sim uma representação que nega a fôrma pré-estabelecida em prol da infinitude de caminhos que a multidão pode oferecer. Essa diversidade espelha o mundo e condiz com o que se vê no Cinese: “a gente queria ser uma ponte que ajudasse as pessoas a se encontrarem — pro que quer que fosse. Pra formar novas redes de apoio, pra dividir ideias, pra elaborar projetos, pra testar, pra trocar”.

Apostando na multiplicidade de formas, propus à equipe do Cinese finalizar a nossa conversa com a elaboração de um haicai que simbolizasse o que havíamos trocado. Elas prontamente aceitaram o convite e, após alguns minutos, cada uma escreveu uma frase. Tomei a liberdade de organizá-las neste micropoema:

O acontecido aconteceu: aprendi.
Que a gente só é gente porque não é só.
É preciso protagonizar a vida para revolucionar o mundo!

 

Referências

Blog do Cinese. Disponível em: blog.cinese.me.

The World Café: living knowlegde through conversations that matter. Juanita Brown, David Isaacs e a comunidade do World Café. Disponível em:http://www.theworldcafe.com/articles/STCoverStory.pdf


Este texto faz parte da série de casos inspiradores do livro da Educação Fora da Caixa. Veja a cena sobre a AIESEC aqui.

Meus agradecimentos à Camila e Anna Haddad e à Giovana Camargo, empreendedoras do Cinese, pela ótima conversa que tivemos ;)

* Ilustrações de Marina Nicolaiewsky. Terça Louca.